O tabaco é uma das culturas mais técnicas do agro brasileiro. Nasce em canteiro, atravessa quase dez meses de manejo cuidadoso e só vira matéria-prima de valor depois de um processo de cura que muda a cor, o aroma e o preço da folha. Quase tudo o que sai daqui é exportado. Vale entender como funciona, do primeiro ao último passo.

Onde se planta, e quem planta

A produção brasileira está concentrada nos três estados do Sul, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, onde o clima subtropical favorece a cultura. Quem planta são famílias. Mais de 138 mil delas, segundo a Afubra, em lavouras que raramente passam de poucos hectares. A maioria trabalha no sistema integrado, em que a indústria fornece insumos, assistência técnica e a garantia de compra da safra, e o produtor entrega a folha dentro de um padrão contratado.

O ciclo da planta

O ciclo é longo e manual nos pontos que decidem a qualidade. Ele começa antes da lavoura, no canteiro, hoje quase sempre no sistema de bandejas flutuantes, o float, onde a semente vira muda protegida. Depois de cerca de dois meses, a muda vai para o campo.

Do transplantio até a folha seca somam-se perto de dez meses. No meio do caminho está a etapa que mais mexe no resultado, a capação e a desbrota. A planta de tabaco floresce, e a flor rouba energia da folha. O produtor remove a flor, na capação, e os brotos laterais que nascem depois, na desbrota, forçando a planta a concentrar tudo na folha, que fica maior, mais espessa e mais rica.

A colheita respeita o tempo de cada folha, porque elas não amadurecem todas juntas. Maturam de baixo para cima, e é assim que se colhe. No Virgínia, folha a folha, em várias passadas ao longo de semanas, à medida que cada andar da planta chega ao ponto. No Burley, colhe-se a planta inteira. O ponto certo tem sinais claros no campo, o talo que embranquece, a folha que perde o pelo e quebra fácil, a cor que começa a clarear.

A cura, onde a folha vira produto

Folha colhida ainda não é tabaco. O que transforma a folha verde em matéria-prima de valor é a cura, o processo controlado de secagem que fixa a cor, o aroma e a química da folha. É aqui que o Brasil separa dois mundos.

O tabaco de estufa, o grupo do Virgínia, responde pela maior parte da produção. A folha é curada em estufas, com calor e umidade controlados, num processo artificial que leva entre cinco e sete dias. A temperatura sobe aos poucos e a folha passa do verde ao amarelo vivo, depois a tons de laranja e mogno. É essa cura que dá ao Virgínia a folha clara e o perfil que o mercado procura.

O tabaco de galpão, que reúne o Burley e o Comum, segue outro caminho. A cura é natural, ao ar, em galpões ventilados, com as plantas penduradas por volta de quarenta dias. Sem calor artificial, a folha seca devagar e fica escura. São tabacos de tom e de uso diferentes, e por isso atendem mercados diferentes.

A cura é a etapa mais técnica e mais arriscada da cadeia. Uma estufa mal conduzida estraga em dias o que a lavoura levou meses para produzir.

Variedades e a classificação que define o preço

No Brasil, o Virgínia domina, com a grande maioria da produção. O Burley responde por cerca de 14%, e o Comum, por volta de 1%. Cada um tem folha, cura e uso próprios.

Depois de curada, a folha não vale toda o mesmo. Ela é classificada. A posição em que estava na planta, o baixeiro embaixo, o meeiro no meio e o ponteiro no topo, somada à cor, ao corpo e à integridade, define a classe. E a classe define o preço. É por isso que o tabaco é uma cultura de gestão fina. O mesmo hectare rende muito mais ou muito menos conforme o produtor acerta o manejo, a colheita e, acima de tudo, a cura.

Quanto a folha rende

Toda essa técnica se traduz em produtividade. A lavoura brasileira colhe, em média, entre 2.300 e 2.700 quilos de folha por hectare, num pedaço de terra pequeno e intensivo em trabalho. É uma das culturas de maior receita por hectare do país, o que ajuda a explicar por que ela sustenta tanta gente em áreas tão reduzidas.

O mercado é lá fora

O destino da folha brasileira é, quase todo, a exportação. O Brasil é o maior exportador de tabaco em folha do mundo desde 1993, e em 2025 embarcou perto de US$ 3,4 bilhões para 121 países. O principal destino é a Bélgica, que recebe pelo porto de Antuérpia e redistribui para a Europa. China e Estados Unidos também estão entre os maiores compradores. É uma cultura pensada para o mercado global, não para o consumo interno.

Quem compra define a régua

Vender para esse mercado significa produzir dentro das regras que o comprador impõe. A indústria mantém um programa de sustentabilidade, o Sustainable Tobacco Programme, que exige rastreabilidade da folha, autoavaliação anual e aceita visitas de verificação na lavoura, com atenção às condições de trabalho. A diretiva europeia de dever de vigilância, a CSDDD, aprovada em 2024, reforça essa lógica ao cobrar das grandes empresas o controle de impactos em toda a cadeia, o que se transmite, por contrato, até o produtor no Sul do Brasil.

O crédito e o sistema integrado

Há ainda uma particularidade financeira. O crédito bancário tradicional é escasso no setor, em boa parte porque muitas instituições adotam políticas de exclusão do tabaco por critérios ESG. Na prática, quem financia a safra do produtor é o próprio sistema integrado, que adianta insumos e assistência antes do plantio. Isso aproxima produtor e indústria numa relação de dependência mútua, com vantagens e limites para os dois lados.

O tabaco é, no fim, uma cultura técnica, intensiva e voltada para fora. Cabe em pouca terra, exige muito manejo e concentra o seu valor numa folha bem curada e bem classificada. Os números e o mercado estão detalhados na página do tabaco.